terça-feira, 12 de abril de 2011

Um sistema de assentamento pré-histórico

Peço desculpas pelo atraso no post. Durante o mês de março estive bastante atarefado, estudando e terminando o texto para a qualificação, uma etapa na qual os professores avaliam o desenvolvimento inicial da pesquisa. Em função disso, estive pensando em alguns temas para abordar, e o que mais achei interessante foi o tema temporariamente barrado na minha qualificação: O sistema de assentamento.

Como já havia afirmado anteriormente, recentemente evidenciamos sítios arqueológicos pré-históricos em Cruz Alta. Vestígios de grupos indígenas do passado que ocuparam a região muito antes do período colonial. Sabemos que se trata possivelmente de uma ocupação de grupos que possuíam um modo de vida baseado na caça e coleta de alimentos. A figura acima – que não representa algum grupo cultural específico – ilustra um pouco sobre o modo de vida desses povos.

Como a escavação programada para o fim de 2010 apresentou alguns imprevistos, realizei uma pesquisa em sítios arqueológicos encontrados na região – através do cadastro eletrônico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – procurando identificar sítios com características semelhantes aos sítios encontrados em Cruz Alta. O entendimento sobre a cultura material pré-histórica da região pode identificar uma possível relação entre os sítios encontrados com outros identificados e cadastrados no IPHAN. Essa pesquisa ainda está em andamento, já que este mês pretendo visitar alguns lugares onde poderei encontrar mais informações sobre as prospecções arqueológicas realizadas no noroeste do Rio Grande do Sul. Enquanto não realizo essa investigação, exponho algumas observações a respeito do estudo dessas sociedades pré-históricas.

Alguns arroios que cruzam o município são afluentes da bacia do Rio Ijuí. Por sua vez, essa bacia hidrográfica faz parte da bacia do Rio Uruguai, curso de água que abriga próximo às suas margens, os sítios arqueológicos – associados a grupos de caçadores-coletores – mais antigos do Estado. Em períodos mais recentes, nota-se aparecimento de outros sítios arqueológicos na bacia do Rio Ijuí, ou seja, a concentração de sítios arqueológicos que existia ao longo do Rio Uruguai, agora começa a se distribuir por outras áreas do Estado.



Comparação entre as primeiras ocupações de caçadores-coletores e a dispersão deles pelo Estado (retirado de SCHMITZ, 1991, pp. 26-27).

O que é interessante pensar é que esses sítios arqueológicos de Cruz Alta podem ser ocupações resultantes de movimentos migratórios ao longo da Bacia do Rio Ijuí. Tal afirmação se configura a partir do deslocamento de grupos pré-históricos a partir do curso dos rios, já que seus acampamentos localizam-se sempre próximos aos cursos de água.

Por fim, pensei em entender esses sítios localizados em Cruz Alta a partir de um possível sistema de assentamento dos grupos pré-históricos, isto é, perceber a possibilidade dos 5 sítios arqueológicos evidenciados serem parte de um mesmo sistema cultural, ou não. É possível, quem sabe, averiguar esse tipo de constatação a partir da escavação dos sítios. Porém, os imprevistos aconteceram – tanto na banca de qualificação da dissertação, quanto no que diz respeito à escavação que não aconteceu – e é importante agora prosseguir buscando alternativas para se estudar Pré-História em Cruz Alta.


SCHMITZ, Pedro Ignácio. O Mundo da caça, da pesca e da coleta. In: Pré-História do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 1991.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Voltando à programação normal.

Nossa! Mais de um mês sem novas postagens. Pedimos desculpas. Durante este hiato no blog estivemos na cidade na Pelotas cumprindo alguns compromissos relativos a nossos estudos. Agora, de volta, retomaremos nossas pesquisas e regularizaremos as postagens nos próximos dias. Até logo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

"Belas fachadas, não?"

Imagine-se na posição de um viajante que vem pela primeira vez a nossa cidade. Ao ver a profusão de fachadas antigas, exibindo diferentes épocas, técnicas e estilos, e tendo uma câmera fotográfica em mãos, este viajante hipotético talvez fizesse várias fotos, para depois mostrar a seus amigos e familiares os  belos prédios históricos de Cruz Alta. Suas fotos poderiam ser como estas...








Não é preciso ser um excelente fotógrafo. A beleza de muitas destas fachadas fala por si. Porém embora sejam prédios distintos, todas estas fotos têm algo em comum. Por mais que tentasse, nosso turista não conseguiria desvencilhar-se da quantidade de postes e (principalmente) fios elétricos e telefônicos que, baixos demais, teimam em ficar entre a casa e o fotógrafo. Ao retornar para sua cidade de origem e mostrar as fotos a seus amigos, talvez nosso turista dissesse:
- Belas fachadas, não? Pena que os fios atrapalharam a foto...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lendo Erico Veríssimo

Flávio Loureiro Chaves diz que


A literatura brasileira sempre registrou as grandes transformações sociais, adquirindo com freqüência um aspecto documentário para trazer ao debate as profundas alterações das forças detentoras do poder econômico e político. Daí porquê, no caso de Érico Veríssimo, a ficção nunca se desvinculou da função de instrumento válido para a interpretação da realidade circundante.
Hoje, gostaria de falar um pouco de como a literatura tem me ajudado a construir um quadro mais completo daquilo que busco na minha pesquisa. Recentemente li "Solo de clarineta", de Erico Veríssimo. Na verdade, o primeiro de dois tomos de uma edição de 1980. Confesso que até então carregava comigo um certo preconceito com o escritor. Nada contra sua obra, afinal não a conhecia diretamente. Contudo, nunca fui afeito às associações do tipo "Cruz Alta: terra de Erico Veríssimo" e isso de certo modo fez com que não tivesse muita vontade de lê-lo.
Tenho tentado compreender a paisagem da cidade; como práticas sociais e interesses individuais ou de grupo, econômicos, sociais e políticos, se articularam na produção e utilização da paisagem urbana e como, pelo processo histórico, tornaram a cidade tal como a conhecemos hoje. E com "cidade" refiro-me exatamente a esse palimpsesto de ruas, casas e pessoas que construíram, habitaram, transformaram e deixaram suas marcas nestas ruas, casas, edifícios e praças de Cruz Alta. As vidas e práticas sociais que tiveram lugar nos primeiros anos da cidade se perderam, mas muitos vestígios materiais destas vidas e práticas permanecem entre nós.
Para fundamentar minha pesquisa, tenho procurado diferentes fontes: documentos, livros, dissertações, teses, artigos... Em um dado momento, porém, senti falta de uma experiência mais humana da cidade, que não se propusesse a ser neutra ou científica. E isso acabou me levando a Erico Verissimo...

Ainda em Pelotas, em fins de 2010, encontrei no Sebo Icária (na Dom Pedro II 838, pertinho da praça Cel. Pedro Osório, no centro... vale a viagem) alguns volumes por um preço razoável. Comprei "O continente" 1 e 2, "Incidente em Antares" e uma edição em dois tomos de "Solo de clarineta", que por ser um livro de memórias do escritor foi o primeiro que decidi ler. Sem tomar o livro como uma verdade absoluta, mas considerando-o exatamente o que é - um livro de memórias - queria tentar compreender como Erico lembrava de sua vida no período em que aqui viveu. Por quais ruas andou, que personagens conheceu, de que atividades sociais participou... Fui imediatamente absorvido pelo livro, pelo estilo, pela narrativa. Por mais de uma vez me percebi sorrindo e concordando com diversas opiniões e reflexões do romancista. Em determinado trecho do livro, ao falar sobre a ideia de produzir seu romance histórico "O tempo e o vento", Erico escreveu que


Para o menino e para o adolescente – ambos de certo modo sempre presentes no inconsciente do adulto –, o poético, o pitoresco e o novelesco eram atributos que raramente ou nunca se encontravam em pessoas, paisagens e coisas do âmbito nacional e muito menos do regional e ainda menos do municipal. Nossos livros escolares – feios, mal impressos em papel amarelado e áspero – nunca nos fizeram amar ou admirar o Rio Grande e sua gente. Redigidos em estilo pobre e incolor de relatório municipal, eles nos apresentavam a História do nosso Estado como uma sucessão aborrecível de nomes de heróis e batalhas entre tropas brasileiras e castelhanas. (Ganhávamos todas). Nossos pró-homens pouco mais eram que nomes inexpressivos, debaixo de clichês apagados, em geral de retícula grossa: sisudos generais, quase sempre de longas costeletas, metidos em uniformes cheios de alamares e condecorações; estadistas de cara severa especados em colarinhos altos e engomados. [...] Concluí então que a verdade sobre o passado do Rio Grande devia ser mais viva e bela que a sua mitologia. E quanto mais examinava a nossa História, mais convencido ficava da necessidade de desmitifica-la.
Ler este trecho foi uma boa surpresa. O que Veríssimo escreveu relaciona-se diretamente com nossos objetivos de demonstrar que outras dimensões da história podem ser estudadas a partir dos vestígios arqueológicos. A ficção sem dúvida trata de pessoas muito mais reais que os generais, coronéis, políticos e estancieiros que por vezes a história parece tratar, uma vez que ela é escrita muitas vezes com base exclusivamente em documentos oficiais, administrativos, judiciais, cartoriais. Desse modo, fui buscar no solo de clarineta de Erico as memórias registradas por este conterrâneo que vivenciou por um período de sua vida a paisagem urbana e social da Cruz Alta durante parte do século XX. Um registro de modo algum mais neutro ou verdadeiro que o de um historiador, mas muito mais pessoal, mais espontâneo, mais vivo... Uma visão posicionada, é claro! Erico olhou Cruz Alta de sua própria posição social e a partir de suas idiossincrasias individuais. Se tivesse hoje em mãos as memórias de um peão de estância, de um neto de escravos, de uma lavradora que viveu da extração da erva-mate ou de um comerciante, teria representações diferentes da cidade e de suas pessoas. (E como seria bom se estas memórias hipotéticas realmente existissem...).

Ao falar de sua vida familiar, das andanças com os amigos, dos personagens que frequentavam seu meio social, Erico fala de uma Cruz Alta que raramente aparece nos livros de história, e realmente colabora na desmitificação dessa história no momento em que fala de pessoas comuns, vivendo suas vidas cotidianas. Vidas mais parecidas com as nossas (com a minha, pelo menos). O escritor descreve personagens cujos nomes não ficaram imortalizados nas placas das esquinas ou nas fachadas das escolas; fala de práticas sociais que se davam em outros planos que não os movimentos revolucionários e decisões políticas - embora obviamente ligadas a estes. E mais importante, ao menos para os meus objetivos, fala sobre como foi viver na Cruz Alta de outros tempos.
Apenas para ficar em um exemplo, em dado momento Erico fala sobre a cidade.


Como era Cruz Alta em 1926? Ora, era uma cidade sem rios nem lagoas, plantada em cima dum coxilhão, a quase quinhentos metros acima do nível do mar e dotada de bons ares. Podia-se dizer que seu eixo era a Rua do Comércio, que começava na frente da estação ferroviária e, indo de praça a praça, chegava até umas ruelas baixas e esbarrondadas, onde terminava. De lá avistavam-se as suaves coxilhas em derredor, com seus capões azulados e suas estradas e barrancos, que mais pareciam talhos – ora dum vermelho de sangue de boi, ora dum amarelo-alaranjado – abertos naquelas terras vestidas dum verde vivo e lírico. Umas três ou quatro ruas paralelas ou transversais à do Comércio tinham certa importância. Na sua maioria não estavam pavimentadas de paralelepípedos, de sorte que quando sopravam ventos erguia-se do solo [...] uma poeira avermelhada que deixava, muros casas e caras um tanto encardidos.
Comparar é inevitável. Muita coisa é diferente na Cruz Alta de 2011. Por outro lado... a Rua Pinheiro Machado não é ainda a rua do comércio? Não é ainda hoje o centro comercial da cidade? (E o final  - ou começo, se considerarmos a atual numeração da Pinheiro Machado - ainda não é uma "ruela baixa e esbarrondada"? Aqueles que como eu moram ou passam por este trecho sabem do que estou falando). Talvez seu antigo nome fizesse mais sentido. Em um determinado momento, porém, foi decidido que um  ilustre cidadão merecia uma homenagem, e desde então a rua é de Pinheiro Machado, que desafortunadamente não circula mais por lá.

Mas voltemos à Erico Veríssimo. O fato é que a experiência de ler "Solo de clarineta" não poderia ter sido melhor. Fui completamente envolvido pelo livro. Inicialmente tencionava ler apenas o período referente à vida de Erico em Cruz Alta, mas sua narrativa me enredou de tal maneira que avancei até suas memórias de Porto Alegre, da vida nos Estados Unidos... Ao terminar este livro, de imediato emendei a leitura de "O continente", parte de uma das grandes obras da literatura brasileira, "O tempo e o vento". Trata-se inegavelmente de um livro de história do Rio Grande do Sul, melhor que muitas obras historiográficas que se propõem a tratar do tema. Veríssimo destaca também a famosa belicosidade do gaúcho, mas aqui a vemos não pelos olhos dos famosos generais, mas pela visão das mulheres que esperavam aflitas por seus maridos e  filhos, e por estes mesmos, muitas vezes recrutados a força para combater em guerras das quais não sabiam muito bem os motivos. Erico sem dúvida sabia construir personagens densos e interessantes. Na miríade de figuras que o escritor apresenta, tive especial afeição pelo Dr. Carl Winter, médico alemão que se instalou em Santa Fé, e por Fandango, capataz da estância do Angico. O primeiro cativa pelo olhar estrangeiro com o qual acompanha e analisa as comédias e tragédias de Santa Fé; o segundo por sua sabedoria  popular, seus causos e ditos, talvez mais verdadeiros que muitos axiomas da ciência. Ambos foram professores, cada um a sua maneira, do jovem Licurgo Cambará, personagem fundamental no segmento d'O sobrado.

Não tenho a pretensão nem a competência necessária para analisar em detalhes a obra de Erico Veríssimo. Apresento aqui a opinião de um leitor que, por pura ignorância, só recentemente dedicou-se a conhecer em maior profundidade o trabalho do romancista.

A experiência de ler Veríssimo esclareceu para mim o motivo de tamanha - e merecida - reverência ao escritor. Reconheço agora o talento e a relevância deste conterrâneo. Todavia, não sejamos ingênuos! Nossos "heróis" são escolhidos e com Erico Veríssimo não foi diferente. Algumas cidades escolhem ser a terra do milho, ou a terra do Papai Noel, ou a capital das missões. Poderíamos ser a terra de Firmino de Paula, a terra de Pinheiro Machado, a terra de Zé da Silva (já fomos a "cidade dos buracos", devido à fama de nossos asfaltos tempos atrás...). Em algum momento, escolheu-se que esta seria a terra de Erico Veríssimo, e isso obviamente se refere a um tipo de imagem que a cidade quer representar de si mesma; à possibilidade de atrair turistas não só ao museu, mas ao nosso comércio, etc... Associar a imagem da cidade a um de seus mais conhecidos cidadãos, escritor de fama internacional, traz benefícios econômicos, sociais, políticos... 

Interesses diversos permeiam a representação de passado que uma cidade faz e, como dizem, "são os vencedores que escrevem a história". Aqueles cujos nomes são dados à praças, ruas ou escolas são escolhidos por algum motivo. Não são representantes naturais de nosso passado; foram colocados nesta posição. Posso não saber quem foram Pinheiro Machado, Venâncio Aires, Margarida Pardelhas, Annes Dias, General Osório e tantos outros nomes que vejo pelas ruas de Cruz Alta, mas o fato de ter que conhecer estes nomes para me localizar espacialmente garante que eles permaneçam entre nós, que sejam lembrados. E desse modo, parecem ser os únicos personagens importantes de história cruzaltense, quando não são. Não me entendam mal, não estou advogando a negação ou o esquecimento destes personagens. Tiveram certamente papel importante na história da cidade e merecem ser estudados e lembrados. Contudo, um pouco de senso crítico não faz mal a ninguém. Por que apenas eles? Militares de alta patente podem ter pensado as estratégias de combate, mas foram quase sempre os peões, lavradores e escravos que mataram e morreram nas guerras. As decisões políticas ditaram os rumos da economia e da sociedade, mas foi no cotidiano, no ordinário, na prática social, que estes rumos adquiriram forma e substância. Uma famosa professora só pode assim ser reconhecida por ter tido papel importante da vida de seus alunos. Ninguém faz nada sozinho.

O passado passou (óbvio!), e não tem existência concreta. Tudo que temos são documentos, objetos, fotos... vestígios, ou seja, fragmentos do passado que sobrevivem no presente. Historiadores e arqueólogos utilizam-se destas fontes, selecionam, organizam, esquematizam, e por um exercício intelectual preenchem as lacunas. E neste sentido, a história não é descoberta. É criada.

Contudo, se Cruz Alta tem que ser a terra de alguém, Erico Veríssimo é, afinal, uma boa escolha...

REFERÊNCIAS
CHAVES, Flávio Loureiro. História e literatura. Porto Alegre: Ed. Universidade-UFRGS, 1999.
VERÍSSIMO, Erico. O tempo e o vento - O continente I. São Paulo: Globo, 2000.
VERÍSSIMO, Erico. O tempo e o vento - O continente II. São Paulo: Globo, 2000.
VERÍSSIMO, Erico. Solo de clarineta I. Porto Alegre: Editora Globo, 1980. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Memória, materialidade, identidade

Todos nós temos memória. Geralmente a associamos ao que lembramos do passado. Porém, muitas vezes esquecemos que, por mais que o foco seja o passado, a memória é sempre presente. Não vejo aquela conhecida frase - "quem vive de passado é museu" - como uma frase que tenha algum sentido. Sem memória não sabemos quem somos, não sabemos como agir, não sabemos o que pensar. Agimos hoje, pensamos o presente e o futuro, mas com toda uma bagagem de experiências pretéritas.

Lembramos o passado, mas sempre restritos a nossa experiência de vida. Antes disso, podemos saber algo graças às memórias de nossos pais, nossos avôs, etc. Quando queremos saber mais, partimos para outras fontes de conhecimento do passado.

No que diz respeito à história de Cruz Alta, foram produzidos livros que falam sobre o assunto, cadernos de poesia, diversos documentos históricos, etc. Além disso, todo ano, músicos de todo o Estado se apresentam na Coxilha Nativista, escrevendo músicas sobre a cidade. “Tropa ponta cortada”, “Terra Saudade”, “A hora do sétimo anjo”, entre outras.

Não esqueço um seminário que assisti no segundo semestre de 2010, onde o palestrante argumentava sobre a importância de conhecer outros passados. Segundo ele, somente assim as pessoas podem se sentir mais livres para construir sua identidade.

É aí que entra o nosso papel enquanto arqueólogos. Nosso foco principal – diferente dos historiadores - não são os documentos escritos. Usamos a materialidade para entender o que não lembramos, e muitas vezes para entender aquilo que os documentos escritos não falam. “Conversamos com as pedras”, conforme um professor nosso dizia. Essas pedras dizem respeito a outras histórias da região onde vivemos, às quais não conhecemos muito bem. Através das pedras sabemos algo sobre o antigo modo de vida dos primeiros habitantes da América, que viveram no lugar onde hoje vivemos.

E essa é só uma das histórias. O que dizer dos casarões do século XIX e início do XX, destruídos em favor da modernidade, do progresso? Nós enquanto cruzaltenses podemos escolher aquilo que queremos como patrimônio da nossa cidade. Enquanto alguns se preocupam em apagar a materialidade do passado, como uma borracha apagando uma boa história escrita pelo lápis, outros se preocupam em manter o que resta dessa materialidade, dessa história. Cruz Alta não é somente a cidade de Érico Veríssimo ou a cidade da lenda da panelinha. Cruz Alta é bem mais que isso.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Com coisas e papéis, construímos outros passados

Arqueologia não se faz apenas escavando sítios e analisando materiais arqueológicos. Em arqueologia histórica, a pesquisa em fontes documentais é etapa fundamental do trabalho, uma vez que a diversidade de fontes produz um quadro interpretativo mais amplo, necessário para a compreensão do passado que buscamos. Para uma arqueologia de Cruz Alta, portanto, precisamos também ir ao arquivo histórico. O Museu e Arquivo Histórico do Município fica na antiga estação ferroviária. Vale a pena conhecer.





Nas fotos, eu e Fabrício Renner de Moura, historiador cruzaltense.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pessoas e coisas

Antes de qualquer coisa, desculpem a demora em postar novamente. Ao começarmos o blog, esquecemos da correria de final de semestre nas disciplinas, cursos e trabalhos finais. Embora tenhamos um número ainda pequeno de seguidores, o número de visualizações foi surpreendemente alto (embora tenha receio de que devido ao tamanho exagerado dos nossos posts, nem todos se deem ao trabalho de ler). Todavia as aulas estão acabando e logo retornaremos a Cruz Alta com mais tempo para nossas pesquisas e para o blog.

Mas vamos ao que interessa.

Sendo bastante simplista, posso dizer que arqueólogos estudam coisas. Estas coisas, no entanto, são produto de ação humana. Arqueólogos, portanto, estudam pessoas a partir das coisas que elas produziram e utilizaram. Mas na arqueologia, como em outras ciências, diferentes formas de pensar influenciam o pesquisador e geram diferentes formas de fazer arqueologia. Assim, existem diferentes formas de pensar como pessoas e coisas se relacionam, dependendo das teorias as quais cada um se identifica e se vincula. Em uma destas teorias, se reconhece que pessoas e coisas se fazem mutuamente. E sobre isso é o post de hoje.

Pessoas fazem coisas; isso é fato. Mas e as coisas, fazem pessoas?

Para o antropólogo britânico Daniel Miller (entre outros), sim. Segundo ele, muito do que somos está não dentro de nós, em uma substância ou essência interna; mas fora de nós, nos lugares que frequentamos e nos objetos que utilizamos. Todos aprendemos nas aulas de português que uma frase é composta de um sujeito e um predicado. O sujeito determina de onde parte a ação, e o predicado é tudo aquilo que se diz ou que se declara sobre o sujeito. No predicado há o objeto, que indica aquilo que sofre a ação. Filosoficamente, somos pensados quase sempre nesta mesma lógica: somos sujeitos, agimos. As coisas são objetos, e apenas sofrem a ação; são passivos. Esta visão, contudo, tem sido questionada...

Em um de seus últimos livros publicados no Brasil, o filósofo esloveno Slavoj Žižek fala sobre o que ele chama objeto incômodo, invertendo a lógica a partir dos verbos derivados sujeitar e objetar. Sujeitar é submeter-se, estar sujeito a algo ou alguém. Objetar é criar uma objeção, um obstáculo. Assim, para este filósofo, bem como para o antropólogo Daniel Miller, a materialidade que nos cerca cria obstáculos, e estamos em certa medida sujeitos a ela. A materialidade de uma cidade como Cruz Alta dirige nossos movimentos, os habilita e os constrange. O traçado das ruas, fruto de planejamento e intenção humanas, dirige os movimentos dos habitantes da cidade. Os obriga a caminhar por aqui, e não por ali. Os objetos também têm esse poder. O machado não é apenas a ferramenta com a qual corto uma árvore. Ele é absolutamente fundamental. É ele que me dá a capacidade de cortar a árvore. Ele age, portanto, como um meio de manifestar minha intencionalidade, me habilita a um tipo específico de engajamento com o meio ao meu redor (neste caso, cortar a árvore) que não seria possível sem o machado.

Arqueólogos chamam as coisas que estudam de cultura material. Para Daniel Miller, o termo é útil exatamente porque reconhece que as coisas que nos rodeiam são também parte de quem nós somos. Muitas vezes tendemos a pensar no "eu" como uma essência interna, constante, que de dentro de mim garante que eu sou, e sempre serei eu. Contudo, identidade é algo que se assume, uma construção sempre presente e dependente do contexto em que estamos. É comum ver pessoas que passam a tomar chimarrão e escutar música gaúcha com muito mais frequencia quando vão morar em outro estado, exacerbando seu "gauchismo" em uma tentativa de demonstrar sua identidade em relação ao outro (me ocorre agora que a cuia é um ótimo exemplo... quando trabalhei por um período no Ceará, ao me ver com a cuia na mão todos perguntavam: "você é gaúcho, né?"). Mas a materialidade tem papel importante na nossa identidade em diversos sentidos...

Quando nascemos, somos criados dentro de um pequeno ambiente social, a família. Neste ambiente, observamos o que acontece a nossa volta, aprendemos como andar, como falar... aprendemos também qual a hora de almoçar e a hora de dormir, a roupa para ir a escola e a roupa para ir à missa. O que a materialidade tem a ver com isso? É aqui também que aprendemos como os espaços de uma casa devem ser divididos: que tipos de móveis vão na cozinha e que tipos vão no quarto... Aprendemos que o rosa é cor de meninas e o azul é cor de meninos.Quando crescemos, reproduzimos muitas destas coisas, exatamente porque nos parecem naturais, pois as coisas já eram assim quando nascemos. No entanto estas formas de pensar são construídas historicamente. Quando nascemos, apenas "pegamos o bonde andando." É a partir deste mecanismo que a cultura se reproduz. Uma de minhas sobrinhas, antes de começar a falar (português), já põe telefones celulares na orelha e fala por horas (em uma língua que provavelmente só ela e o interlocutor entendam). Crescendo em um meio onde observa as pessoas ao seu redor falando com aquele objeto apoiado no rosto, ela reproduz a prática e aprende uma maneira específica de se relacionar com essa coisa. Mesmo sem saber falar, ela já sabe o que fazer com o telefone. Afinal, é o que todos ao seu redor fazem: apóiam o aparelho na orelha, e falam.

Embora esteja morando em Pelotas, me identifico como cruzaltense. Mas ser um cidadão de Cruz Alta implica, entre outras coisas, que eu reconheça as ruas da cidade, que eu vivencie suas esquinas, que eu saiba o nome das ruas, enfim... é preciso que eu conheça e experiencie a cidade em seus aspectos materiais. Se sou estudante, uma série de outros objetos vai garantir com que os outros me reconheçam enquanto estudante: mochilas, canetas, cadernos, livros. Os objetos que utilizamos são também parte do que somos. Uma forma de entender isso é imaginar a seguinte situação: entro no quarto de uma pessoa que eu não conheço, e este quarto está cheio de objetos desta pessoa. Prestando atenção nestes objetos, posso conhecer um pouco mais de quem os usa. Roupas sujas espalhadas pelo quarto sugerem que ele não é muito organizado; livros de Dostoiévski, Erico Verissimo e Gabriel Garcia Márquez indicam que gosta de literatura; um cinzeiro cheio me leva a pensar que trata-se de um fumante... Toda prática envolve diferentes formas de engajar-se com a materialidade, seja frequentando um espaço específico ou utilizando diferentes ferramentas. Para ser um pedreiro, preciso estar em construções e dominar o uso das ferramentas e dos materiais de construção. Se sou enfermeiro, roupa branca e um estetoscópio são elementos característicos.

E se fizéssemos esse mesmo tipo de leitura sobre objetos do passado? Instrumentos pré-históricos feitos em pedra lascada, como os já encontrados na área próxima ao campus da Unicruz e nas proximidades do presídio; ou fragmentos de louça e vidro do século 19, como encontramos no terreno hoje ocupado pela sede do Sicredi... Estudar objetos como estes (e muitos outros que podem estar logo abaixo de nossos pés) nos permitiria entender diferentes formas de viver, de engajar-se com a paisagem, de produzir e utilizar objetos... Cruz Alta tem potencial para isso.

Em resumo, o que nos define não é uma essência interna que determina nossos atos. Somos aquilo que fazemos, e baseado naquilo que fazemos os outros também nos definem. Esse fazer envolve, sempre, a materialidade. Disso se conclui que a identidade não é fixa e imutável. Estamos em constante movimento e em constante mudança e, exatamente por isso, os objetos do passado são reivindicados como âncoras para dar coerência a estas identidades sempre problemáticas. Essa é a principal função atribuída ao patrimônio. Mas isso é assunto para outro post...