quinta-feira, 2 de junho de 2011

A engenharia da terra

Estive fazendo um trabalho de contrato nos últimos dias, em Rio Grande. Tive a oportunidade de encontrar um cerrito:


Para uma melhor explicação do que seria, indico o blog do colega e amigo Marlon Borges Pestana:

sábado, 14 de maio de 2011

Arqueologia de contrato, ou por que um arqueólogo abandona seu blog

O blog anda parado, eu sei, e peço desculpas àqueles que acompanham o nosso trabalho. Começamos com um post em conjunto e, desde então, temos revezado, ora eu, ora o Fernando, com postagens sobre o andamento de nossas pesquisas. Afora algumas pequenas postagens que independem desse revezamento, essa tem sido a nossa lógica de trabalho aqui no blog. Como o último post foi do Fernando, sobre sistemas de assentamento e as hipóteses para a ocupação pré-colonial dessa área que hoje chamamos Cruz Alta, o próximo texto arqueológico seria meu, e de fato deveria ter sido escrito e postado há muito tempo atrás. Não foi por mal, juro.

Hoje eu retomo a atividade no blog, embora ainda não seja pra falar de arqueologia histórica, tampouco da falada "Cruz Alta arqueológica". Contudo, é um tema que tem tudo a ver com aquilo que propomos para a cidade, e ao fim do texto espero que vocês também percebam a relação.

O fato é que há um motivo bem claro e simples para eu não ter escrito nada no blog nos últimos vinte dias: dinheiro. Como quase todo mundo, não sou rico e não posso me dar ao luxo de apenas estudar. Preciso trabalhar. Mas... aonde exatamente trabalha um arqueólogo? Muitos trabalham em universidades, como docentes e pesquisadores; mas outros - a grande maioria - trabalham em outro ramo, comumente chamado arqueologia de contrato.

Não entrarei em detalhes - acho que não é o caso - mas desde meados dos anos 80 a arqueologia está inserida nos estudos de impacto ambiental, isso em âmbito federal. Os grandes empreendimentos (rodovias, ferrovias, usinas hidrelétricas, complexos industriais, etc) só se concretizam mediante licenciamento ambiental; precisam financiar estudos de impacto ambiental e agir de acordo com a legislação vigente para obter as licenças para construir e funcionar. Contratam então empresas, ongs, ou universidades que realizem os estudos necessários. E sendo os bens arqueológicos tidos como patrimônio da união, sua preservação é de interesse do Estado, que embora não contenha a destruição, mitigue as perdas com a legislação. No caso específico da arqueologia, empresas de consultoria científica são contratadas para realizar: diagnósticos, verificar o potencial da área; prospecções, busca por vestígios de ocupação humana que caracterizem um sítio arqueológico; e quando idenficados os sítios, fazemos o resgate, ou salvamento, ou seja, a escavação propriamente dita, escavada com cuidado, com controle, com registro, para que se possa estudar o acervo de cultura material daí proveniente, associado ao registro feito em campo, das plantas baixas e desenhos de perfis estratigráficos, etc... e claro, o próprio arqueologo, que usa de modelos teóricos e metodológicos para compreender e tratar os dados. Enfim, estes estudos são tornados relatórios entregues às empresas contratantes e ao Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que o analisa e dá - ou não - a licença. Muitos viram dissertações de mestrado e teses de doutorado também. Enfim, muitas empresas fazem isso de boa vontade, outras gostariam de mandar o licenciamento ambiental à PQP, mas não interessa. É isso ou multa.

Enfim, calhou que eu fui chamado pra um trabalho, e como precisava de dinheiro, vim para Imperatriz, no sul do Maranhão, para trabalhar no resgate de um sítio arqueológico pré-histórico. Nesse caso especificamente, a obra já encontrava-se em andamento. Em boa parte do terreno a vegetação já havia sido suprimida e os morros terraplanados. Apenas a área em que trabalhávamos estava preservada, exatamente porque tendo sido identificado o sítio arqueológico, a empresa só pode atuar na área após efetuado o estudo, e o relatório entregue e aprovado pelo IPHAN. Quando isso ocorrer, vai tudo abaixo... árvores, o morro inteiro! Se há um porém neste trabalho, é a tristeza de ver as máquinas arrasando tudo...

E acreditem, escavar sob o sol quente e o clima abafado de Imperatriz não é nada fácil.




Bem, e o que isso tem a ver com Cruz Alta, que afinal está no título do blog? Nada, em um primeiro olhar. Mas por outro lado, o que eu quero destacar é a inserção da arqueologia nos estudos de impacto ambiental em âmbito federal, o que acontece também em muitos estados e municípios. A questão é que a lei federal abrange áreas grandes, ao passo que em geral no meio urbano os lotes são menores, e a lei não se aplica. Nestes casos, é o município que legisla. Porto Alegre, por exemplo, tem uma arqueóloga em seu quadro funcional, e um programa já tradicional de arqueologia urbana. Santo Ângelo, vizinho à nossa cidade, conta também com uma arqueóloga na prefeitura, que leva a cabo estudos arqueológicos prévios a novas edificações na cidade.

Cruz Alta ainda não acordou para isso; talvez ainda demore. (Num município onde se declaram a plenos pulmões o passado e os feitos históricos, que tem dois museus mas nenhum muséologo - profissional que poderia facilitar a entrada de recursos para resolver os diversos problemas de nossos museus por meio de leis de incentivo à cultura, por exemplo - há algo muito errado com as políticas culturais. No mínimo, desinteresse).

domingo, 24 de abril de 2011

Cruz Alta Arqueológica no Diário Serrano

Pois é, hoje o caderno Especial Domingo, do Diário Serrano, publicou uma matéria sobre nossas pesquisas na cidade. Antes de tudo, agradecemos ao jornal pelo espaço, que foi de fato bem maior do que imaginávamos. Houve apenas uma pequena confusão, e aproveito aqui para corrigi-la. Na foto na parte superior da página 2 do caderno, estamos eu e o historiador Fabrício Renner de Moura - que estuda a história da cidade - em uma de nossas idas ao arquivo histórico municipal. Fabrício não atua diretamente conosco, mas por termos um interesse acadêmico próximo, dialogamos bastante e fizemos algumas pesquisas em conjunto durante as férias. Na parte inferior da página, aí sim, estamos eu e Fernando Silva de Almeida (de boné preto).

terça-feira, 12 de abril de 2011

Conferência cultural Diálogos culturais

Reproduzo aqui o convite publicado no blog Cultura Cruz Alta.

CONVITE
A Secretaria Municipal de Cultura de Cruz Alta e Secretaria de Estado da Cultura - SEDAC convidam para a Conferência Regional da Cultura "DIÁLOGOS CULTURAIS" a ser realizada no dia 16/04/2011, das 8h às 13h, na Casa de Cultura Justino Martins, Cruz Alta.
A Conferência tem por objetivos discutir e apresentar propostas para a política cultural em nível local, regional e estadual, o Sistema e o Plano Estadual de Cultura, além de dar início à construção de colegiados setoriais de cultura no Rio Grande do Sul.
A Conferência é aberta à participação de todos.

Não sei vocês, mas nós estaremos lá.

Um sistema de assentamento pré-histórico

Peço desculpas pelo atraso no post. Durante o mês de março estive bastante atarefado, estudando e terminando o texto para a qualificação, uma etapa na qual os professores avaliam o desenvolvimento inicial da pesquisa. Em função disso, estive pensando em alguns temas para abordar, e o que mais achei interessante foi o tema temporariamente barrado na minha qualificação: O sistema de assentamento.

Como já havia afirmado anteriormente, recentemente evidenciamos sítios arqueológicos pré-históricos em Cruz Alta. Vestígios de grupos indígenas do passado que ocuparam a região muito antes do período colonial. Sabemos que se trata possivelmente de uma ocupação de grupos que possuíam um modo de vida baseado na caça e coleta de alimentos. A figura acima – que não representa algum grupo cultural específico – ilustra um pouco sobre o modo de vida desses povos.

Como a escavação programada para o fim de 2010 apresentou alguns imprevistos, realizei uma pesquisa em sítios arqueológicos encontrados na região – através do cadastro eletrônico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – procurando identificar sítios com características semelhantes aos sítios encontrados em Cruz Alta. O entendimento sobre a cultura material pré-histórica da região pode identificar uma possível relação entre os sítios encontrados com outros identificados e cadastrados no IPHAN. Essa pesquisa ainda está em andamento, já que este mês pretendo visitar alguns lugares onde poderei encontrar mais informações sobre as prospecções arqueológicas realizadas no noroeste do Rio Grande do Sul. Enquanto não realizo essa investigação, exponho algumas observações a respeito do estudo dessas sociedades pré-históricas.

Alguns arroios que cruzam o município são afluentes da bacia do Rio Ijuí. Por sua vez, essa bacia hidrográfica faz parte da bacia do Rio Uruguai, curso de água que abriga próximo às suas margens, os sítios arqueológicos – associados a grupos de caçadores-coletores – mais antigos do Estado. Em períodos mais recentes, nota-se aparecimento de outros sítios arqueológicos na bacia do Rio Ijuí, ou seja, a concentração de sítios arqueológicos que existia ao longo do Rio Uruguai, agora começa a se distribuir por outras áreas do Estado.



Comparação entre as primeiras ocupações de caçadores-coletores e a dispersão deles pelo Estado (retirado de SCHMITZ, 1991, pp. 26-27).

O que é interessante pensar é que esses sítios arqueológicos de Cruz Alta podem ser ocupações resultantes de movimentos migratórios ao longo da Bacia do Rio Ijuí. Tal afirmação se configura a partir do deslocamento de grupos pré-históricos a partir do curso dos rios, já que seus acampamentos localizam-se sempre próximos aos cursos de água.

Por fim, pensei em entender esses sítios localizados em Cruz Alta a partir de um possível sistema de assentamento dos grupos pré-históricos, isto é, perceber a possibilidade dos 5 sítios arqueológicos evidenciados serem parte de um mesmo sistema cultural, ou não. É possível, quem sabe, averiguar esse tipo de constatação a partir da escavação dos sítios. Porém, os imprevistos aconteceram – tanto na banca de qualificação da dissertação, quanto no que diz respeito à escavação que não aconteceu – e é importante agora prosseguir buscando alternativas para se estudar Pré-História em Cruz Alta.


SCHMITZ, Pedro Ignácio. O Mundo da caça, da pesca e da coleta. In: Pré-História do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 1991.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Voltando à programação normal.

Nossa! Mais de um mês sem novas postagens. Pedimos desculpas. Durante este hiato no blog estivemos na cidade na Pelotas cumprindo alguns compromissos relativos a nossos estudos. Agora, de volta, retomaremos nossas pesquisas e regularizaremos as postagens nos próximos dias. Até logo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

"Belas fachadas, não?"

Imagine-se na posição de um viajante que vem pela primeira vez a nossa cidade. Ao ver a profusão de fachadas antigas, exibindo diferentes épocas, técnicas e estilos, e tendo uma câmera fotográfica em mãos, este viajante hipotético talvez fizesse várias fotos, para depois mostrar a seus amigos e familiares os  belos prédios históricos de Cruz Alta. Suas fotos poderiam ser como estas...








Não é preciso ser um excelente fotógrafo. A beleza de muitas destas fachadas fala por si. Porém embora sejam prédios distintos, todas estas fotos têm algo em comum. Por mais que tentasse, nosso turista não conseguiria desvencilhar-se da quantidade de postes e (principalmente) fios elétricos e telefônicos que, baixos demais, teimam em ficar entre a casa e o fotógrafo. Ao retornar para sua cidade de origem e mostrar as fotos a seus amigos, talvez nosso turista dissesse:
- Belas fachadas, não? Pena que os fios atrapalharam a foto...